domingo, 17 de fevereiro de 2013

Pensamentos sobre a "Regra de Ouro"

Um outro dia, aconteceu um debate legal no Facebook graças a uma postagem em um blog falando sobre a tal Regra de Ouro (terminologia que a White Wolf usa nos seus livros) nos RPGs. Para quem não sabe, essa regra diz, basicamente, que o narrador pode modificar, criar, ignorar coisas do manual do jogo na sua mesa. O princípio dessa regra é que o jogo agora é dele, e o manual é apenas um guia de ferramentas para contar histórias, e não uma camisa de força que deve ser usada para se jogar. Ou seja, ao contrário dos jogos de videogame, nos RPGs de mesa, você tem a liberdade de "alterar" a realidade, reprogramar o jogo, mudar o universo. E não é essa liberdade de fazer o que quiser, jogar em qualquer realidade, e fazer coisas que seriam impossíveis em outros meio que nos atrai tanto ao nosso hobby?

Mas, ao que parece, muita gente acho que essa tal de Regra e Ouro é uma muleta dos designers de jogos ruins, ou uma arma que narradores usam para destruir os jogos. Algumas pessoas acreditam que os criadores desses jogos colocam essa regra para se isentar de "cagadas" que tenham feito e poderem falar "não gostou? muda!". Mas se isso realmente for verdade, a grande imensa maioria das pessoas que fazem jogos são maus designers, até mesmo aqueles considerados papas do assunto, como o Mont Cook, já que a Regra de Ouro está presente em muitos jogos deles (mesmo que não sobre esse nome). Daí eu me pergunto, será que o motivo é realmente se livrar das cagadas? Será que isso é só uma muleta do criador de jogos?

Eu acredito que não. Eu acho que essa regra seja apenas uma licença que o criador dá às pessoas que vão jogar o seu jogo de inserirem um pouco da visão delas naquele universo também. As vezes, as pessoas que estão jogando podem querer ver como o jogo seria se outras regras fossem acrescentadas a eles (talvez nos moldes que eu faço nas minhas postagens sobre usando regras de outros RPGs no seu jogo favorito). Quem sabe inserindo em uma campanha de D&D as regras de "Fellowship Phase" do The One Ring. Ou criando relações e histórias entre os personagens com Fiasco. Outras vezes, os jogadores podem querer criar coisas novas como jogar de Orc, Minotauro, ou outra raça não comum em jogos de fantasia que não suportam isso. Eu mesmo acabei de criar regras para poderes psiônicos para Barbarians de Lemuria, que não há sequer menção no livro básico. Isso é falha de design do criador do jogo? Acho que não.

Aliás, eu acho que um jogo que consegue aceitar regras caseiras e modificações nele facilmente é um jogo muito bem construído, com uma estrutura maleável, flexível e pensada para ser modular. São jogos que chamam os jogadores para criar em cima deles, modificar, acrescentar, reduzir. Se isso é uma falha de design, gostaria de saber o que é um acerto, então. Aliás, acredito que esse hábito de brincar, e mexer com as regras dos jogos que gostamos é um exercício muito bom de "game design" também. Com certeza, muitos jogos que foram sendo criados se desenvolveram a partir de outros com uma série de "regras da casa", que foram crescendo ao longo do tempo (a OSR está cheia de jogos assim, como Astonishing Swordmen & Sorcerers of Hyperborea, Dungeon Crawl Classics RPG, X-Plorers, Amazing Adventures, Old Dragon, Space Dragon).

Já sobre o suposto uso da Regra de Ouro como uma arma de destruição do jogo por mestres, aqui cabe uma ressalva. Ao invés de partir do pressuposto que as pessoas são sem noção, não sabem do que fazem, e que querem sacanear umas as outras (um pressuposto usado por muita gente), eu acredito no ser humano, no bom senso, e nas escolhas conscientes de cada um. Se o cara pega o sistema de Cthulhu (que é o BRP) e resolve tirar a Sanidade, e isso modifica o "espírito do jogo", e ela deixa de ser Call of Cuthulhu, qual o problema? Ele fez isso propositalmente. Você não sabe a intenção por trás disso, não sabe o que ele está tentando fazer, onde ele quer chegar nem nada disso. "Ah, mas ele descaracterizou o jogo! Ele devia era jogar outro RPG!". Sim, claro, mas ele está jogando outro RPG! Ele pegou como base o Call of Cthulhu, mas transformou esse jogo em outra coisa, com uma escolha! Afinal, jogar RPG é sobre fazer escolhas! Escolher quem você vai ser, qual mundo você vai visitar, quais a realidade daquele mundo, que ação vai tomar, e uma série de outras escolhas. Um livro de regras não é um impeditivo de escolhas, ele é um auxílio para tomar decisões. Mas somente isso, um auxílio.

Eu já tinha lido e ouvido falar em um conceito sobre RPG, e fui lembrado dele na discussão que rolou no Facebook. O RPG só existe na mesa, quando ele está sendo jogado, quando ele se manifesta através dos jogadores. Sendo assim, cada grupo, com indivíduos únicos, vai gerar uma experiência de jogo única e diferente das demais. O livro de RPG é apenas uma ferramenta, e não o RPG em si. Sem os jogadores e a experiência pessoal que eles trazem, o livro não se torna RPG, ele não se joga sozinho.

Agora, sendo um fã dos jogos ditos "Old School", eu sempre acabo relacionando esses assuntos com essa minha paixão. Uma das características principais dos RPGs clássicos era a liberdade do mestre com o sistema, que se apresentava mais como uma ferramenta simples e genérica, ao invés de tentar detalhar todas as possíveis e imagináveis possibilidades dentro do jogo. Um dos princípios dos jogos "Old School" é, então, o "Rulings over Rules", significando que o mestre, usando as ferramentas ao seu dispor, o bom senso e o conhecimento do universo do jogo, criava regras e decidia o que acontecia na hora do jogo. E os sistemas comportavam bem isso. Agora, com o passar do tempo, e os jogos ficando cada vez mais detalhados, mecânicos e transformando o mestre em apenas o "hardware" em que o "software" roda, fica cada vez mais difícil isso acontecer.

Bem, é óbvio que esse assunto poderia rendar muito mais, mas prefiro terminar por aqui, Para variar, essa foi mais uma postagem "catarsica", em que eu precisava expor meus pensamentos mais profundamente para eles não ficarem remoendo o meu sono. Com certeza, não vou achar que eles significam a verdade e a justiça (como não acho que os livros de regras sejam invioláveis), mas sim que eles refletem minha filosofia e pensamentos sobre o RPG que jogo.

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